Vida de Rómulo de Carvalho

Rómulo Vasco da Gama Carvalho (1906-1997) nasceu em Lisboa em 24 de Novembro de 1906, dia em que desde 1996, se comemora o Dia Nacional da Cultura Científica em sua homenagem.

Homem multifacetado, historiador e divulgador da ciência, pedagogo e professor, profissão que exerceu durante 40 anos com invulgar mestria e genuína vocação – a sua “voz interior”, como a designa – é conhecido nas Letras através do seu pseudónimo António Gedeão, publicando o seu primeiro livro de poemas, Movimento Perpétuo, em 1956, apesar desde sempre a poesia lhe estar nas veias como denotam as “primeiras sete estrofes da continuação dos Lusíadas” que surgem publicadas no Jornal Notícias de Évora, já em 1917.

Agraciado com o Grau de Grande Oficial da Instrução Pública em 1987 e com o Colar da Ordem Militar de Sant’Iago e Espada em 1996, académico efectivo da Academia das Ciências de Lisboa e Doutor Honoris Causa pela Universidade de Évora, Rómulo de Carvalho licenciou-se em Ciências Físico-Químicas pela Universidade do Porto, após inicialmente ter frequentado o Curso Preparatório de Engenharia Militar na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

Desde muito cedo, revela o seu pendor pela investigação e de divulgador da ciência; relativamente ao primeiro, inicia os seus trabalhos estudando os equipamentos e as peças de material didáctico do primitivo Gabinete de Física destinados à Fundação da Faculdade de Filosofia em Coimbra, pertença originária do Gabinete de Física do Real Colégio dos Nobres – um processo que culmina com as notáveis publicações: História da Fundação do Colégio Real dos Nobres (1761-1772), em 1959, e História do Gabinete de Física da Universidade de Coimbra desde a sua Fundação (1772) até ao Jubileu do Professor Italiano António Dalla Bella (1790), em 1978; como divulgador da ciência, sendo autor já publicado neste domínio, propõe em 1951 uma colecção – Ciência para Gente Nova – focando a evolução histórica de acontecimentos e instrumentos que conduziram a humanidade ao estado em que a ciência e a técnica de então dominam. Surgem assim a História do Telefone, da Fotografia, dos Balões, da Energia Nuclear, da Radioactividade, dos Isótopos, entre outras, que deliciaram e entusiasmaram muitos jovens a seguirem estudos e carreiras na área das ciências.

Não se pode deixar de referir que a sedimentação da sua obra de investigação se centrou primordialmente na Ciência em Portugal no Séc. XVIII (a Física Experimental, a Astronomia, a História Natural) nas relações científicas pessoais e institucionais na mesma época (Portugal e a Rússia, Royal Society, estudos sobre figuras como Bento de Moura Portugal, João Jacinto Magalhães, João Chevalier, para citar alguns exemplos) e na acção continuada do estudo, inventariação e catalogação de material didáctico, agora existente no Museu Maynense da Academia das Ciências de Lisboa de que é Director.

Como historiador, no sentido lato, é marcante a sua obra História do Ensino em Portugal desde a Fundação da Nacionalidade até ao fim do regime Salazar-Caetano.

Também é continuada a sua acção como divulgador da ciência, sendo proeminente a colecção dos Cadernos de Iniciação Científica iniciada em 1979 e completada em 1985 (18 cadernos) e exemplar a publicação A Física para o Povo (com reedição recente, A Física no Dia-a-Dia), esta com objectivo de promover a cultura científica ao cidadão comum.

O elo entre Rómulo de Carvalho e António Gedeão pode ser sentido na publicação, por parte do primeiro, de O Texto Poético como Documento Social (1995).

António Gedeão é talvez a face deste insigne autor mais conhecida do público devido a vários dos seus poemas terem sido musicados. A obra poética de António Gedeão surge compilada pela primeira vez (3 volumes) em 1964 com Prefácio de Jorge de Sena, seguindo-se as publicações de Linhas de Força (1967) e, posteriormente, Poemas Póstumos (1983) e Novos Poemas Póstumos (1990) culminando com a publicação Poesia Completa (1990) com ilustrações de Júlio Pomar. A peça de teatro RTX-78/24 e a obra de ficção A Poltrona e outras novelas são também obras a mencionar.

Contudo, é na sua vocação como Professor que o impacte pedagógico se fez sentir tanto nos seus alunos como nos professores-estagiários das áreas da Física e da Química sob a sua orientação, impacte que teve acção alargada a tantos outros discentes que não os seus e docentes dessas áreas através dos seus artigos da Gazeta de Física, onde era colaborador desde o inicio, da revista Palestra, uma revista periódica de carácter cultural do Liceu Pedro Nunes que era amplamente distribuída, e através dos seus compêndios de ensino – compêndio de Química para o 3º ciclo, Guia de Trabalhos práticos de Química para o 3º ciclo, Problemas de Física para o 3º ciclo do ensino liceal e, posteriormente, Ciências da Natureza (2 vols) e os compêndios de Física para os 10º e 11º anos de escolaridade, para citar alguns.

António Gedeão é patrono de duas escolas secundárias e Rómulo de Carvalho é nome de uma rua de Lisboa, em Marvila, bem como nome de Prémio Municipal de Ciência e Didáctica da Câmara Municipal de Lisboa (Prémio esquecido!!).

Deste Presidente Honorário da Sociedade Portuguesa de Física (1988), desaparecido em 19 de Fevereiro de 1997, Memória de Lisboa (livro de fotografias) e As origens de Portugal, História contada a uma criança, com ilustrações suas, publicados postumamente, fazem o deleite de muitos.

A partir da data do seu falecimento, têm-se multiplicado os estudos (e homenagens) e reflexões sobre a sua obra cujo espólio se encontra na Biblioteca Nacional.